O Tempo

Impacto da passagem do tempo no comportamento e na formação da identidade

Eis que se inicia o relógio… mais um dia, mais uma chance, mais uma paixão. E me pergunto: haverá criação mais brilhante do que o Tempo? És um dos deuses mais lindos, certamente. Não acho o Cronos exatamente bonito, — mas beleza também nunca foi requisito para mandar na existência inteira, né? — ainda assim, tenho certeza de que ele discorda profundamente daquela ideia de roer-se de inveja de nós, por morrermos de amor para tentar reviver. Orgulhoso como só um deus grego consegue ser, provavelmente prenderia a autora dessa ousadia no Tártaro junto com ele. E sinceramente? Ainda bem que ele foi preso lá e não morto. Então ainda existe todo o tempo do mundo para gastar nosso suor sagrado.

Tempo, tempo, tempo…

No tic-tac do relógio ele passa. Escorre silencioso, elegante, quase debochado.

Sinto-o fluir de uma forma que não consigo acompanhar. Quando percebo, já mudou meu humor, minhas vontades, minhas certezas e até aquela música que eu jurava nunca enjoar. É cruel perceber que o tempo anda sem pedir licença, e pior: sem olhar para trás.

Há tantas coisas guardadas em meu coração que, no meio desse tumulto, preciso me agarrar a algo. Uma lembrança, uma fotografia antiga, uma conversa de madrugada, qualquer detalhe pequeno que me dê a falsa sensação de ter segurado o tempo por um instante. Porque tudo agora mesmo pode virar “era uma vez” em questão de segundos. O café esfria, o amor muda de roupagem, as pessoas partem, e até nós já não somos exatamente quem éramos ontem.

Ó, Tempo Rei!

Tu brincas conosco de um jeito quase artístico. Às vezes aceleras quando queremos permanecer; às vezes te arrastas quando queremos fugir. Em ponto de ônibus, és eterno.

Em momentos felizes, vira fumaça. Que injustiça extremamente bem organizada.

E é impossível não admitir John: o tempo andou mexendo com a gente. Mexeu nos sonhos, nas memórias, nos medos e nas paixões. Talvez viver seja exatamente isso: tentar acompanhar os ponteiros enquanto fingimos ter algum controle, quando no fundo sabemos que pertencemos completamente ao Tempo. E sem nós, ele continua.

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