Mentir

Um ensaio poético e reflexivo sobre a passagem do tempo, as transformações da vida e a busca humana por preservar memórias diante da inevitabilidade das mudanças.

São inúmeras as mentiras que eu conto para mim mesma. Dizem que é impossível mentir para si mesmo, mas eu discordo, talvez sejamos incapazes de nos enganar, mas pelo menos tentar mentir pra si mesmo é um mal enraizado. Seja em pensamento como “eu não gosto daquela pessoa” ou em fala como “tô bem”, “não lembro” ou a minha favorita “não é nada”. Eu garanto que se não fosse nada nunca teria sido, porque é um nada e a partir do momento em que foi tornou-se algo, da mesma forma que “não me incomodou” já é um incômodo por si só. Esse tipo de frase é o que eu uso como “amenizador da convivência”, porque apesar de não atestar uma verdade, sendo um mal, é quase que necessária no cotidiano para evitar possíveis discussões ou conversas, portanto, enraizada em meu convívio. Assim como elas, por vezes, permitem que o fluxo sanguíneo dos meus relacionamentos volte a fluir, se acumuladas também podem se tornar um coágulo que bloqueia sua circulação.

Mas naquela tarde de São João, as minhas mentiras habituais pareciam ter tirado folga. Em algum lugar entre os problemas que eu esquecia e viravam a fumaça da fogueira e os sorrisos que eu correspondia a quem dançava, eu me vi feliz. Confesso que não sou muito de festa, cresci em uma família que também não é. Não sendo católica, não fui necessariamente introduzida à festa junina, mas entre os festejos e as festas é um dos raros casos em que sinto conforto em meio às danças, ao barulho, às pessoas e até com o caos.

Passei meu dia vagando como quem tentava encontrar o ritmo certo da quadrilha, indo de um lado para o outro e buscando quem ou o que interessasse. Vi as bandeirinhas coloridas que tremulavam livres, o pessoal vendendo pipoca e doces, vi as brincadeiras e ouvi as conversas que se misturavam ou se sobressaiam ao som da música. Mas não vaguei sozinha, ao meu lado havia quem dividisse comigo aquele cenário com igual apreciação, senão maior. Minha companhia e eu conversamos, competimos e apesar de algumas derrotas nas barracas (várias) continuávamos e ela me ancorava, sorrindo.

Como duas pessoas indecisas, obriguei-a a sempre escolher aonde deveríamos ir e ela guiava com um certo contragosto. Às vezes, demoramos com ela decidindo, mas não senti pressa. Deveria parar de sentir pressa com os outros tomando uma decisão, quando eu mesma sei que por vezes demoro divagando. Ao anoitecer, ela sugeriu parar em frente a fogueira. A conversa se encerrou e ficamos em silêncio. Olhei para a luz alaranjada que me fazia pensar em jogar mais lenha na fogueira, assim como o cheiro de queimado inebriante.

Entramos em um acordo mudo por um bom tempo até que ela me perguntou:
– Tu queria tá aqui?

Eu olhei um pouco confusa, com o medo de quem sente ter interpretado errado e ter sido mais feliz que o outro ou ter ido junto a uma festa que o outro não quer ir e feito com ele algo que ele detesta. Foi então que em um milésimo de segundo, percebi um significado por trás daquela pergunta e respondi:
– Se eu não quisesse das duas uma, ou você já saberia disso ou eu nem estaria aqui pra início de conversa.
– Que bom.

Ela me deu um sorriso aliviado e continuamos a apreciar o fogo e a noite. Creio que essa resposta foi um antídoto para o coágulo que mencionei antes. Embora eu minta nas coisas bobas para não incomodar e existam várias mentiras que contamos a nós mesmos, há uma que eu não tolero: a de que eu não tenho liberdade. No fim, fizemos a escolha de parar e olhar a fogueira. Por um tempo.
– Vamo voltar lá pra dentro?
– Pode ser.

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