A escolha de Perséfone

Releitura do mito grego de Perséfone sobre escolhas, liberdade e suas consequências.

Era uma vez, Perséfone. Perséfone sempre foi, mas nunca pôde, de fato, ser. Esteve, desde que se lembrava, à sombra de sua mãe, Deméter, a deusa, não só da agricultura, mas também da colheita e da fertilidade da terra. Apesar da velocidade com que crescia em beleza e em estatura, para todos, Perséfone não passava de uma flor que deveria ser protegida, intocada pelas intempéries do mundo, mantida sob uma redoma de vidro invisível e destinada a ser um broto frágil que murcharia ao menor sinal de vento frio. Ou assim eles acreditavam.

Um dia, enquanto ela descansava em um campo de flores da primavera, o chão debaixo de seus pés se abriu e ela foi consumida pela terra. Sua visão foi tomada pela escuridão e ela sentiu o ar frio entrando em seus pulmões enquanto descia para o chamado submundo. Para baixo, para baixo, para baixo, ela caía. Observou de cima um lugar pelo o qual só ouvira histórias a respeito dele, viu as veias do mundo inferior brilhando em tons de prata e fogo: os rios que dividiam os mortos. Não havia dúvida, estava no Reino de Hades, era um reino de calmaria e esquecimento para as almas mortas vagarem, forjado pelas rochas e pela imensidão cinzenta. 

Como quem acorda de sobressalto de um pesadelo, a queda terminou e ela não estava machucada. Pelo contrário, estava sentada frente a uma extensa mesa com um banquete servido. Havia todos os frutos e néctares que se poderia desejar e antes que a convidada pudesse estender a mão para deleitar-se com a refeição, a sombra do anfitrião apareceu sentada na extremidade oposta. Hades, deus do mundo subterrâneo, a olhava com serenidade. 

– Os vivos costumam imaginar o submundo como um lugar de tormento. É fácil ter medo do que não se conhece.

A deusa continuou evitando seu olhar. Seus olhos percorriam o salão, as colunas esculpidas na própria rocha e o banquete disposto à sua frente. Nada ali lembrava os horrores que lhe haviam contado. 

– Sinto muito que o fiz de forma tão abrupta, mas eu a trouxe aqui porque não havia outro meio de lhe oferecer aquilo que lhe foi negado desde o nascimento. 

– E o que isso seria?

– Uma escolha.

Hades então apontou para uma pequena bandeja de prata. Sobre ela repousava uma única romã. 

– Quem prova o fruto do Submundo jamais pode abandoná-lo… Pelo menos não totalmente.

Perséfone encarou a fruta. Sua casca era de um vermelho intenso que contrastava com a prata do prato. Em meio ao banquete, era o único fruto servido sozinho.

– Eu lhe ofereço um lugar. Um reino onde não será lembrada pelo que esperam de você, mas pelo que decidir ser. 

Perséfone buscou na memória uma única decisão que lhe pertencesse. Encontrou apenas vozes. A de Deméter dizendo por onde deveria caminhar, a dos deuses determinando seu destino, a dos mortais celebrando a primavera sem jamais conhecerem a deusa que a trazia. 

– Eu me pergunto, Perséfone… quantas escolhas lhe pertenceram até hoje? A primavera que os mortais desfrutam é vista como uma dádiva dos deuses ou é apenas aquilo que esperam da sua família?

– É o que impede o inverno.

– A maioria deseja escolher. Poucos desejam carregar as consequências da própria escolha. 

– E se eu recusar?

– Ainda é uma escolha, Perséfone. Eu a conduzirei de volta. Sua mãe a receberá, os campos continuarão a florescer e todos acreditarão que as coisas estão em seu devido lugar. A primavera florescerá. 

Perséfone permaneceu em silêncio. Voltou a olhar para a romã e, por um instante, imaginou o mundo acima exatamente como o deixara. As flores nasceriam. Os campos artificiais permaneceriam os mesmos. Tudo seguiria como sempre. 

Ela estendeu a mão e tomou o fruto.

Se voltasse, nada mudaria.

Se ficasse, tudo mudaria.

Ela levou um dos pequenos grãos à boca. 

E, pela primeira vez, a primavera não veio. 

O inverno chegou.

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