Eu não me lembro exatamente do dia que comecei a reparar nas nuvens, mas tenho certeza que foi depois de conhecê-lo. Não era um dia chuvoso, mas o céu intercalava o seu azul-brilhante com aquelas enormes massas de algodão. Eu havia perdido o ônibus das três horas e conversava com um garoto que esperava no ponto comigo. Ele não era particularmente bonito, entretanto, era especial. Eu conseguia ver isso nos seus olhos azuis, tão brilhantes quanto o céu, tão fundos quanto o mar, tão verdadeiros.
Nos dias seguintes, elas chamaram minha atenção; duas mãos entrelaçadas, braços abertos esperando um abraço, até podia jurar que vi uma silhueta do rosto dele. Todas elas lá em cima, formosamente construídas na mesma textura branca e límpida que sempre esteve acima de mim, mas que nunca prestei atenção. Um pequeno sentimento, uma sensação completamente nova havia nascido dentro de mim, e meu corpo estremecia como se uma brisa gelada circundasse eternamente minha existência.
Elas se tornaram parte da minha vida. Guardei no peito o toque suave e macio que só julgava possível sentir em sonhos, olhava para elas com olhos de criança e me admirava com todas as suas formas. Creio que tenha sido num momento como esse que nossas mãos se tocaram pela primeira vez. Foi uma das únicas vezes que não consegui distinguir o formato das nuvens, todas pareciam explodir à minha vista.
Meus atrasos tornaram-se cada vez mais constantes; nós andávamos pela cidade a esmo, procurando cada vez mais desculpas para não dizer adeus e voltarmos para casa. Lembro-me perfeitamente de como o céu estava em todos esses dias, de quando chovia e ele me cobria com seu casaco aconchegante que tinha exatamente seu cheiro, de quando eu dormia em seus ombros nas voltas para casa, e especialmente dos dias que deitávamos no parque da cidade, debaixo da mesma árvore, para observar no céu as mesmas coisas que nos conectavam tanto. Esse era nosso paraíso.
Não sei exatamente por que estou me lembrando disso hoje, num dia que eu deveria pensar no futuro e como será minha vida a partir de hoje, mas no caminho para a igreja, enquanto o branco do meu véu se confundia com o branco permeado em todas as minhas memórias, minha mente escolheu esse lugar para seu conforto. Enquanto o padre fala e meu noivo segura suas lágrimas, dou uma última olhada pelos vitrais, e vejo no céu o meu passado, presente e futuro, quando noto que, estranhamente, hoje não há nenhuma nuvem no céu.
