Estágios

Uma metáfora sobre a despedida e o luto

No primeiro dia do mês, ele não apareceu. Ela esperou, esperou como nunca esperou antes, porque normalmente era sempre ele quem a esperava. O atraso não era comum a ela. 

Ela não sabe exatamente quando começou, mas todas as noites eles se encontravam, sempre no mesmo lugar, sempre ao lado da mesma árvore de plástico, sempre presentes, quer dizer, com exceção de hoje. 

Ela não entendia, mas ele não podia ser culpado. Não foi por acordo nem contrato que religiosamente eles se encontravam ali todos os dias, simplesmente acontecia, como o dia vira noite, a noite vira dia, como a certeza de que o sol nascerá amanhã percorre inconscientemente nossas mentes, ela sabia que ele sempre estaria lá. 

Mesmo assim, não entendia. Buscou explicações, olhou em todas as direções à procura de algum sinal dele, mas não havia jeito, estava desaparecido, escafedeu-se da face da terra. E ainda assim, ela não entendia. 

Sentiu ódio, um ódio inexplicável que não se justifica sob nenhum ponto de vista. Sentiu-se ridícula, ridícula de esperar pacientemente um compromisso que não existia, indignada por aguardar as badaladas do relógio para certificar-se que tinha razão, que ele estava atrasado. Atrasado para quê? Essa era a questão, o problema primordial, que união havia sido rompida, quebrada, desonrada? 

Descia a avenida para procurá-lo? Esperava-o ali mesmo? Ia embora? Ela agora percebia que sim, existia um vínculo que os prendia aquele lugar ao lado da árvore, àquele mesmo horário de sempre, ela não estava errada. 

Mas estava triste, sentia-se ridícula novamente, desta vez por ter raiva, como poderia odiá-lo, nem que fosse por um segundo? Uma pontada na esquerda do seu peito a impedia. A tristeza e a preocupação tomaram conta de seu semblante, afinal, se ele não estava ali, não era por faltar a ela, não era de propósito, ele jamais faria isso, mas sim porque algo o acometera. 

Imaginou todos os problemas possíveis, imaginou tantas alternativas e suas soluções, o imaginou pensando nela, o imaginou pedindo desculpas pelo atraso, o imaginou seu novamente. 

Ela não se lembra o quanto esperou, mas ela se lembrou do quanto o conhecia, o quanto adentrava cada vez mais naquela persona que se tornava menos desconhecida a cada dia, até que ele quebrou tudo, o laço nu fora queimado pela sua ausência e ela reconheceu que ele não apareceria mais. 

Num ônibus distante, alguém chorou.

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